A filha da relva

Uma figura de silhueta negra emergiu da escuridão da floresta para se juntar à sua corja de mercenários ao redor da fogueira, que crepitava iluminando os outros dois comparsas sentados. Ao se aproximar da luz a criatura comprimiu as pálpebras, protegendo os olhos verde cintilante da claridade em excesso. A pelugem acinzentada do monstro e seu semblante mostravam sua aparência meio hiena meio homem, coluna encurvada em uma posição ameaçadora de ataque e estatura avantajada, cerca de 1.80, davam ao monstro um porte respeitável. Verrugas verdes se espalhavam pela sua cara e focinho e seus dentes eram afiados como facas, no entanto, não era sua defesa favorita, ele carregava consigo um machado de guerra, preso à cintura, e protegendo seu corpanzil, uma malha de metal resistente.

  • Não encontrou nada Irongray – perguntou se levantando o único humano do grupo. Coberto por uma robe marrom que lhe cobria todo o corpo e o rosto, deixando-lhe à amostra apenas a longa barba, apoiava-se em um longo cajado o qual sua ponta era trabalhada em uma cabeça de dragão.
  • Não – rosnou o outro – deve ter sido um alarme falso.- completou hesitante.
  • Não era justamente você que não dava alarmes falsos? – Rebateu ironicamente o Goblin que permanecia sentado com um sorriso provocador nos Goblinlábios, seus dentes serrilhados se protuberavam para fora da boca e embora fosse o menor, era da mesma forma ameaçador. Carregava consigo uma pequena espada de fio sujo de sangue já seco, presa a um cinto de couro adornado por itens macabros. Sua roupa toda de couro ajudava na movimentação furtiva caso precisasse fugir ou atacar de forma covarde.

O Gnoll rosnou ameaçador para o pequeno Goblin, mas não atacou, desistiu da ação ao ver o comparsa segurar firme o cabo da espada, então simplesmente sentou-se à fogueira e continuou em alerta. O mago ao ver a inimizade sessar temporariamente voltou a se afastar da fogueira e foi descansar para reaver seus feitiços que foram perdidos nas terríveis batalhas que se sucederam no dia. “Assim que essa jornada acabar matarei esses dois inúteis e saquearei seus pertences”, pensou consigo antes de entrar na imensidão da meditação profunda.

A audição aguçada do Gnoll ainda captava sons vazios e sem nexo, como se as árvores pudessem falar, o chão, as folhas caídas, mas isso era uma grande baboseira, nunca ouvira árvores naquela região falando, já ouvira falar de Entes e outros seres parecidos, mas não por aquelas bandas, seu nariz, tão poderoso quanto sua audição também não conseguia captar nada, além do cheiro, ao seu ver, nojento das árvores e animais selvagens.

Foi quando o vento, lhe trouxe algo de diferente, um odor notório, próximo ao mago, havia um lobo, sim, não estava errado dessa vez. Feroz e ameaçador, pronto para o ataque, trazia a raiva de um caçador nato em si, como se outro elemento da mesma espécie houvesse entrado em seu território. Como em um salto Irongray se levantou com o machado empunho seguido de seu pequeno companheiro Goblin que o observava alerta. Antes que pudesse avisar o humano do perigo iminente um redemoinho de folhas lhe encobriu a visão e lhe invadiu a bocarra impedindo que falasse.

O Goblin assustado com as lufadas potentes de vento se escondeu sorrateiramente por trás de uma árvore e pode ouvir, agora de forma mais clara, a conversa que as árvores mantinham entre si, podia ouvir claramente, mas não entendia uma palavra sequer do que era dito. Se virou novamente com um som que ecoou por toda a floresta, o grito de seu amigo mago que tinha o corpo estraçalhado por um lobo selvagem. o animal tinha os peitos cobertos por uma pelugem branca como a neve e o dorso preto como carvão. “Será mesmo selvagem?”, se perguntou. Seus dentes esganavam o pescoço do humano, impedindo que soltasse qualquer feitiço e suas unhas tão afiadas quanto o fio da espada de um cavaleiro rasgavam-lhe a barriga.

O redemoinho sessou e Irongray se assustou com a cena, o lobo tinha a boca toda suja de sangue e seu companheiro… morto.

  • Os serviços desse humano me custou caro! – gritou o Gnoll enfurecido, seu machado de guerra suspenso, pronto para acertar o animal com um golpe só.

Dois assobios puderam ser ouvidos antes que o machado realmente houvesse descido, o som da madeira que cortava, imponente, o ar e ganhava velocidade. Antes que pudesse ao menos ver a direção o Gnoll caia ao chão com duas flechas encrustadas na sua cabeça, uma um pouco acima do focinho, entre os olhos e a ultima no pescoço. Tombava também o líder da corja.

Tecnicamente em desvantagem o Goblin fugiu, correu ofegante pela mata densa, sem se importar com os comparsas, sem olhar para trás. Seus pés teimavam em tropeçar em troncos de árvores que vez ou outra pareciam se alongar para alcançá-lo, em uma dessas, a queda foi inevitável. Seu saco de moedas caiu, e ele se apressou a catar, quando ouviu um rosnado. Ao levantar a cabeça viu parado a sua frente e em posição de ataque o lobo que acabara de devorar o humano.

  • Vocês estão querendo meu dinheiro não éh? Seus ladrões miseráveis! – gritou sacando, trêmulo, a pequena espada.

Outro rosnado e então uma figura caiu por detrás do humanoide, uma luz emanava da criatura, mostrando toda a beleza que ela trazia, não uma beleza qualquer, mas uma beleza élfica; poderia facilmente ser confundida com uma deusa. Seus cabelos tão castanhos como o tronco de uma árvore jovem caiam-lhe nos ombros, sua pele tão branca, pintada com maquiagem verde folha nas bochechas e sobrancelhas, da mesma cor era sua roupa, feita de uma material resistente como a madeira e no formato de folhas de carvalho lhe encobriam partes do ombro, antebraço, dorso e pernas com intervalos regulares, permitindo a movimentação rápida que um druida precisava ter.

Uma lâmina cortou o ar, imponente, e da cimitarra jorrou um sangue vermelho escuro, quase negro. A espada atravessara o frágil corpo do pequeno monstro. A mulher retirou a lâmina e a balançou no ar limpando a sujeira que tinha feito. Seu olhar que normalmente mostrava a timidez da pureza de uma garota estava agora determinado em suas ações, como uma mulher que defende o que lhe é querido.

  • Não Goblin – cuspiu as palavras, tentando demonstrar confiança, no entanto, se o Goblin não estivesse próximo da morte não teria sido convencido pela péssima atuação. – Vim buscar algo que não te pertence.

LoreenA mulher vasculhou os bolsos do ser e com um largo e brilhante sorriso no rosto puxou o que tanto procurava. Um colar, de madeira, tinha a aparência de um redemoinho, e em sua superfície era rodeado por pedras verdes e brilhantes e enfeitados com penas de águia, brancas como a neve. Não era um item mágico, mas era precioso para a mulher, era de seu amado, o qual ela agora se arriscava para encontrar. Se fosse preciso entraria em tavernas sujas e cheias de bêbados nojentos, entraria em masmorras cheias de perigos e enfrentaria seus medos, se fosse preciso mataria, como acabara de fazer, mas essa era a última opção, como fora agora. Ela suspirou de cansaço e caiu de joelhos na grama verde com o objeto que recuperara em mãos, respirou por alguns instantes, então a floresta lhe disse para qual caminho seguir.

Mas antes que pudesse dar o primeiro passo ouviu um grunhido fraco e ao se virar viu o Goblin gemendo.

  • Quee.. – cuspida de sangue- quem?
  • Loreen Woodenheart, a filha da relva. – disse com um meio sorriso, estava feliz por ter feito tudo certo, da forma como a haviam ensinado.

Olhou o monstro dar os últimos suspiros e se afastou.

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Comments
4 Responses to “A filha da relva”
  1. @Diihh74 disse:

    “…Não era um item mágico, mas era precioso para a mulher, era de seu amado, o qual ela agora se arriscava para encontrar.”

    Muito bom, Bruuh! Você tá escrevendo cada dia melhor :3

  2. Krizzor disse:

    Otimo, muito bem escrito este preludio, da para perceber qual é a intenção, qual o objetivo da personagem. E as cenas de ação bem legais e mto bem elaboradas
    xD
    congratulaçoes

  3. Rafalicious disse:

    A história parece que saiu do Senhor dos Anéis.
    Muuuuuuuuuita erva do condado, brooow :B

  4. Douglas disse:

    Bom pra caramba, nao vejo a hora de ter novas historias da Filha da Relva!

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